Roteiro de 3 dias no Fitz Roy na Patagônia.
- Ethan Santos
- 9 de jul. de 2025
- 9 min de leitura
Atualizado: 10 de set. de 2025
Fazer a trilha do Fitz Roy já era um sonho antigo nosso. Mas mais do que chegar até a famosa Laguna de los Tres, queríamos viver a experiência completa: acampar no meio da trilha, sentir o vento patagônico de madrugada e, se possível, pegar aquele visual dourado no alto da montanha. E conseguimos — com direito a um pôr do sol inesquecível e um trekking de vários dias cruzando paisagens surreais.
A seguir, compartilho nosso roteiro completo com dicas práticas, horários, clima e estrutura, pra quem quiser se aventurar do mesmo jeito.
🥾 Dia 1 – De El Chaltén ao Camping Poincenot (e a subida inesperada ao Fitz Roy)
Começamos nossa trilha por volta das 10h da manhã, saindo a pé de El Chaltén. Logo na saída da cidade, já se tem uma vista privilegiada do Fitz Roy, imponente no horizonte, e ele nos acompanhou como uma bússola natural durante todo o caminho.
A trilha até o camping Poincenot tem cerca de 8,5 km e é muito bem sinalizada. O início é uma subida constante, mas moderada. O terreno alterna entre solo batido e trechos de pedra, cercado por vegetação rasteira típica da estepe patagônica, com muitos arbustos baixos, flores silvestres e, à medida que ganhamos altitude, começam a aparecer as primeiras araucárias e bosques de lengas.
No caminho há alguns riachos de água limpa e potável, ideais para reabastecer a garrafa. As fontes d’água são confiáveis (muita gente bebe direto, mas se preferir, leve filtro ou pastilhas). Nós sempre levamos pastilhas para garantir. A vista do Fitz Roy vai ficando cada vez mais próxima e dramática, principalmente em dias claros como o que pegamos. O visual é amplo e limpo — o Fitz Roy vai aparecendo cada vez mais nítido, e a sensação de estar entrando em um cenário épico só aumenta.
Um dos pontos marcantes da trilha é o Mirador del Fitz Roy — uma área demarcada com um pequeno painel informativo mostrando os nomes dos picos e agulhas que compõem o maciço. Paramos para tirar uma foto ali (que virou uma das nossas favoritas) e percebemos que o vento não dá trégua nesse ponto.
É um mirante simples, sem estrutura, mas com uma vista sensacional do Fitz Roy inteiro — e muito vento! Sério, ali é onde o vento pega de frente mesmo e a Patagonia mostra um pouco da sua força.
A partir dali, seguimos em direção à Laguna Capri, que fica num pequeno desvio à esquerda da trilha principal. É um excelente lugar pra descansar, fazer um lanche e admirar o reflexo do Fitz Roy na água. Se estiver com tempo, recomendo fortemente incluir essa parada.
Depois da Capri, o caminho segue por dentro de um bosque de lengas
e ñires, onde o terreno fica mais plano e agradável.
A vegetação se fecha um pouco, o som dos riachos fica mais presente, e a paisagem vai ganhando um ar mais selvagem e úmido. Foi nessa parte que tiramos algumas das nossas fotos favoritas da viagem — incluindo essas aqui.
Estávamos muito felizes nesse momento. Era um dia completamente aberto, o Fitz Roy estava totalmente visível, sem uma única nuvem encobrindo as torres. A emoção de estar ali, com tudo dando certo, foi enorme. Pedimos para um casal de turistas que estavam descendo da trilha tirar a foto pra gente. É uma daquelas imagens que, só de olhar, faz a gente reviver toda a energia daquele instante. A gente vai se lembrar pra sempre desse momento.
A paisagem é tão bonita que parece montagem: céu azul profundo, neve brilhando no topo das montanhas e aquele vento constante que lembra onde você está — na Patagônia real.
"Felicidade só é real quando é compartilhada'' - Into The Wild.
Chegamos ao camping Poincenot por volta das 14h, e fomos recebidos pelo som do rio e dezenas de barracas já montadas entre as árvores. Escolhemos um canto plano, protegido do vento, e levamos um bom tempo pra montar tudo — com calma, aproveitando o visual. Terminamos de organizar as coisas por volta das 16h.
Foi aí que surgiu a dúvida: subir ou não subir até a Laguna de los Tres naquele mesmo dia? A recomendação oficial do parque é evitar a subida à tarde, especialmente no fim do dia. Mas o clima estava perfeito, com céu limpo, e a previsão para o dia seguinte era de chuva.
Sabendo disso, decidimos arriscar a subida naquele mesmo dia. Enquanto todo mundo descia, nós começamos a subir.
⚠ Subir após as 16h não é recomendado. Avalie bem as condições de luz e tempo antes de fazer o mesmo.
A subida final tem “só” 1,5 km, mas parece muito mais. É, sem dúvida, o trecho mais puxado da trilha inteira. São cerca de 400 metros de desnível, num caminho que não dá trégua: terra solta, pedras soltas, inclinação forte e o vento soprando direto na cara.
A gente demorou bastante pra completar esse trecho. Subimos no nosso ritmo, parando pra recuperar o fôlego, beber água. Tinha hora que parecia que não chegava nunca, mas a empolgação nos empurrava pra cima. Estávamos cansados, sim — mas felizes demais.
A cada curva, a paisagem ia se abrindo mais. Lá embaixo, o vale começava a ganhar tons dourados com o sol baixo, e isso dava um gás extra. A energia era de missão, de desafio, mas também de parceria. A gente se incentivava, um puxava o outro, e o visual recompensava o esforço a cada passo.
Nesse trecho, a Gabriela pensou em desistir. Ela estava com muita dor nas pernas, o corpo já sentia o peso da mochila e da trilha, e a cabeça também. Era a primeira vez dela encarando esse tipo de aventura, e chegou um momento em que ela ficou realmente abalada — chorou, falou que não aguentava mais. E eu entendi. É um trecho duro, e ela já tinha ido além do que imaginava. Mas eu também sabia que aquela chance era única. Então fui firme — falei com o coração, mas com força: que ela podia, sim, continuar. Que talvez não teríamos outra oportunidade como aquela. Que valia a pena tentar.
Ela respirou fundo, se recompôs, e continuou. E a gente subiu junto, passo a passo, até realizarmos juntos o nosso sonho.
Chegamos ao topo por volta das 19h. E ali aconteceu o que a gente jamais imaginou: estávamos sozinhos na Laguna de los Tres, diante do Fitz Roy totalmente exposto, com o céu pintado de laranja e rosa, e as torres tingidas de vermelho intenso pela luz do pôr do sol.
Não havia barulho, nem passos, nem vozes. Só vento, gelo e silêncio. E foi indescritível. O céu laranja, os picos do Fitz Roy avermelhados e o silêncio completo criaram um cenário quase fora da realidade.
Apesar da estação, a Laguna de los Tres seguia parcialmente congelada, com placas de gelo se quebrando devagar e partes da água começando a descongelar. Uma transição visível entre o frio do inverno que se despedia e o calor do verão que ainda não tinha chegado. A superfície rachada do gelo criava formas incríveis — tons de branco, azul e cinza refletindo a luz alaranjada do fim do dia.
O Fitz Roy completamente descoberto, com seus picos ainda tingidos de vermelho pelo sol poente. A luz passava entre as torres e deixava tudo com um ar sagrado, como se aquele fosse um lugar fora do tempo.


Estávamos exaustos, mas cheios de vida. E, de verdade, não tem como descrever esse momento sem emoção. Depois de tudo o que passamos — o peso das mochilas, a subida puxada, a dor, o medo de não conseguir — estar ali foi uma conquista compartilhada. Uma daquelas memórias que você guarda em silêncio, mas que gritam por dentro cada vez que você se lembra.
Ficamos na laguna até por volta das 21h, aproveitando cada segundo daquele fim de dia cinematográfico. Só então começamos a descer, lentamente, de volta ao Camping Poincenot, com as últimas luzes do céu guiando nossos passos pela trilha de pedras.
Já passava das 21h quando começamos a descer da Laguna de los Tres. O céu ainda guardava um pouco de luz, mas a noite já estava chegando — e rápido. Não é recomendado fazer esse trecho nesse horário, e a gente sabia disso. Mas como a subida foi fora do comum, a volta também seria. Estávamos com lanterna, preparados… ou pelo menos achávamos que estávamos.
No começo da descida, a lanterna parou de funcionar. Tinha carga, mas travou do nada. E aí não teve jeito: tivemos que acelerar o passo, com muito cuidado, guiados pela pouca luz que ainda restava e pela memória do caminho. Não havia mais ninguém na trilha. Só a gente e o som dos nossos próprios passos.
O trecho até o Camping Poincenot à noite pareceu mais longo do que era. A cada curva, o escuro tomava mais espaço e o frio começava a apertar. A gente estava cansado, um pouco apreensivo, mas seguimos juntos, confiando um no outro. Deu tudo certo. Chegamos por volta das 22h, com o corpo moído.

No acampamento, tudo já estava em silêncio. As barracas fechadas e quase todos dormindo, menos um casal de Brasileiro que fizemos amizade e estavam acordados preocupados com a gente por causa do horario. Nos apressamos e montamos um jantar simples — um miojo rápido e quente, que caiu como um banquete. Não era hora de grandes planos, só de se aquecer e descansar. Afinal, no dia seguinte o despertador seria cedo: ainda tínhamos muito caminho pela frente. Naquela época, a gente ainda não tinha os equipamentos ideais pra esse tipo de camping. E isso fez muita diferença. Foi uma noite gelada, difícil de dormir, mesmo dentro da barraca e com camadas de roupa. O chão era gelado e o corpo cansado só queria descanso. Deu tudo certo, mas fica o alerta: pra acampar ali, é essencial estar com um bom saco de dormir (pelo menos zero graus), e de boa qualidade, um isolante térmico eficiente e roupas adequadas fazem toda a diferença.

Dia 2 – Glaciar Piedras Blancas e chegada ao Camping De Agostini.
Na manhã seguinte, a gente enrolou bastante pra sair — o corpo ainda sentia o esforço do dia anterior e o frio da noite mal dormida. Quando finalmente desmontamos tudo, seguimos em direção ao Glaciar Piedras Blancas, um desvio curto e que vale muito a pena. O tempo estava nublado, mas ainda agradável. Durante o caminho, o céu começou a fechar mais… e do nada, começou a nevar.
Foi uma neve leve, rápida, durou uns 30 minutos, mas pegou a gente de surpresa. Ficamos felizes, claro — era neve! — mas também um pouco apreensivos com o clima. Então apertamos o passo, sem grandes paradas, até chegar no nosso próximo destino: o Camping De Agostini, pertinho da Laguna Torre.

Dia 3 – Laguna Torre e retorno a El Chaltén.
Acordamos cedo no Camping De Agostini e fomos direto pra Laguna Torre. Esse trecho da trilha é um dos mais tranquilos, quase todo plano e com uma vista de tirar o fôlego o tempo inteiro. Pra gente, foi o ponto mais bonito de toda a travessia — aquela paisagem que faz você parar em silêncio só pra tentar entender onde está.
Chegamos à laguna e passamos ali cerca de meia hora apreciando a vista. O Cerro Torre, com seu pico afiado despontando entre as nuvens, o glaciar ao fundo e a água esverdeada criavam um cenário completamente surreal. Mas ali também foi onde sentimos o vento mais forte de toda a viagem. Rajadas tão intensas que as pessoas tinham que se abaixar ou se esconder atrás das pedras. Era praticamente impossível ficar em pé por muito tempo. Por mais que a gente quisesse aproveitar mais, o vento não deixava. Tiramos algumas fotos, fizemos vídeos e seguimos o caminho de volta.

Depois disso, iniciamos o retorno a El Chaltén. A trilha de volta é longa, mas sem grandes dificuldades. A gente caminhou no nosso tempo, com o corpo cansado, as pernas doendo, mas com a cabeça leve e o coração cheio. Foram três dias e duas noites intensos, acampando no meio da natureza selvagem da Patagônia, encarando vento, frio, subida, e também muita beleza — daquela que tira o fôlego e grava na memória.
Nos trechos finais da trilha, quando a gente já avistava El Chaltén lá no fundo, pequenininha, no pé das montanhas, deu uma mistura de sentimentos. Era o fim de uma jornada marcante, que começou cheia de expectativa e terminou com a gente transformado. A gente se olhou, sorriu e soube que tinha vivido algo especial.

No caminho, também fizemos amizades que vamos levar pra vida. Pessoas de várias partes do mundo, gente que cruzou nosso trajeto, que dividiu abrigo no vento, água na trilha, risadas em espanhol, inglês, português. Esse tipo de experiência aproxima — mesmo em silêncio, mesmo com sotaques diferentes.
A gente chegou ao final da trilha exausto, sujo, com frio… mas muito feliz. Com a sensação de missão cumprida, de conexão com a natureza e de superação. E com uma certeza: essa travessia vale cada passo.
Na época da nossa viagem, ainda não era cobrada nenhuma taxa para entrar nas trilhas ou acampar nos campings gratuitos do parque. Mas isso mudou. Hoje em dia, tudo é pago — inclusive o acesso à trilha do Fitz Roy, que passou a ser cobrado por dia de permanência. Então é importante verificar os valores atualizados antes de ir, mas já vá sabendo que não é mais gratuito como era antes.
Algumas fotos do trekking.







































